quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Esperança!


Gostava de ver os barcos partindo
assim, na escuridão,
ainda dia não feito.
A esperança agarrada aos olhos de cada
pescador,
gritando alto que este dia sim, seria bom.
Que os barcos voltariam pesados,
tomados de tantos peixes...
Gostava de vir todo dia.
A esperança renovada!
Não gostava de vir à enseada na volta da jornada.
Não gostava de ver o resultado.
Não eram os olhos da vitória ou
da derrota que me tocavam,
mas os da esperança...
A esperança, esta sim, me encantava.
E ela estava toda nos olhos deles,
todas as manhãs,
não importava o dia de ontem...



Ilustração: gstatic

domingo, 16 de janeiro de 2011

Regar saudades


Que outro destino pode ter a chuva,
que não o de cantar no telhado
sua doce melodia em noites de solidão?
Que companhia pode ser mais agradável?

Te aquieta!
Deite-se e ouça.

Deixe que tua alma vague e viaje e
que busque nestas gotas tão calmas
os olhos que se foram...

A chuva, afinal, também rega saudades...



Ilustração: flickr

sábado, 15 de janeiro de 2011

Por teimosia


Existem sorrisos
que vêm embalados em
flocos de nuvens
e que iluminam e
aquecem
nossos olhos até nas
noites mais frias...

E que permanecem,
mesmo depois que,
por teimosia,
o dia amanhece...


Ilustração: gstatic

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Soledade Santos


Não precisamos de muita coisa
( Soledade Santos)

Não precisamos de muita coisa,
um pouco de sol e as berlengas no
horizonte,
a tarde escorrendo na cafeteria,
os nossos olhos lentos e as vidraças
subitamente acesas no esplendor das
bátegas,
patos selvagens erguendo-se na lagoa
quando sairmos e ao vento frio
oferecermos
a transparência dos lábios cercados
pela melancolia da tarde que se nos finda.

E à noite talvez as mãos
ardidas de saudade e em surdina
uma canção de Ella e Louis Armstrong.


Ilustração: gstatic

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Nos jardins


O terreno, extenso, era inclinado.
Descia a partir da casa, suavemente,
em direção à barranca do rio.
Levava na descida todas as lembranças
que, há muito, envelheciam com ele.
Sentia, ainda, o sabor do passado
e as angústias todas vividas naquela casa.
Lembrava dos longos silêncios compartilhados
e dos olhares tão doloridos.

Grande no passado, a casa era, agora,
muito pequena para abrigar tantas memórias.

Porisso passava grande parte das horas
do dia fora de casa, no jardim,
onde, sem olhar nos seus olhos,
ela lhe dissera adeus...



Ilustração: gstatic

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Quartos escuros


Não têm direito às noites de lua cheia
aqueles que, vacilantes na vida,
não encontraram seu lugar na varanda.
Condenados à escuridão do abandono,
adaptam-se à pouca luz.
E fogem até dos dias claros
buscando quartos cerrados,
a ausência de palavras,
o deserto de emoções...


Ilustração: gstatic

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Pilhagem


Descubro rotas,
atravesso mares, oceanos.
Pirata,
saqueio tesouros alheios,
divido riquezas,
belezas e glórias.
Incansável.
Minha mão toca e
sente texturas do ouro,
da prata,
dos teus cabelos...

Mesmo assim,
tão distantes, agora
tão meus!


Ilustração: gstatic

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Meu lugar


Fecho os olhos e volto a ver tudo.
Todas as pessoas, completas ou não,
todos os lugares
de sonhos e de dores.
Fecho os olhos e eles recuam no tempo.
E me mostram sons, luzes, momentos
que o futuro nunca apagou.
E ouço vozes
e sinto olhares e ventos
e caminho.
Por cada esquina, cada café,
cada recanto que
teimosamente ainda estão lá.
Menos eu!


Ilustração: trekearth

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Devaneio


Sentava-se ali ao sol,
mal este despontava
e deixava que o dia
escorresse por suas mãos,
por seus olhos,
pelo resto de sua alma.
Parecia fazer parte da
natureza à sua volta.
Sua voz,
tal qual o silêncio absoluto,
ecoava mais do que
se gritasse.
Seu olhar,
fixo no passado,
já não brilhava mais.
A vida, como o vento,
estava muito longe...


Ilustração: unpuntodereflexion

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Herança


Este é o velho trem
que no passado levava,
sempre,
muitos sonhos,
muita esperança,
muitas desilusões.

Espalhava sentimentos
enquanto engolia trilhos.

Deixou herdeiros quando
parou definitivamente de
rodar.
Do seu testamento recebi,
sozinho,
todas as desilusões!




Ilustração: blogdofavre