Não precisamos de muita coisa, um pouco de sol e as berlengas no horizonte, a tarde escorrendo na cafeteria, os nossos olhos lentos e as vidraças subitamente acesas no esplendor das bátegas, patos selvagens erguendo-se na lagoa quando sairmos e ao vento frio oferecermos a transparência dos lábios cercados pela melancolia da tarde que se nos finda.
E à noite talvez as mãos ardidas de saudade e em surdina uma canção de Ella e Louis Armstrong.
O terreno, extenso, era inclinado. Descia a partir da casa, suavemente, em direção à barranca do rio. Levava na descida todas as lembranças que, há muito, envelheciam com ele. Sentia, ainda, o sabor do passado e as angústias todas vividas naquela casa. Lembrava dos longos silêncios compartilhados e dos olhares tão doloridos.
Grande no passado, a casa era, agora, muito pequena para abrigar tantas memórias.
Porisso passava grande parte das horas do dia fora de casa, no jardim, onde, sem olhar nos seus olhos, ela lhe dissera adeus...