sexta-feira, 31 de agosto de 2012
Miragem ( IRA BUSCACIO )
Poesia de IRA BUSCACIO do blogue FACES DO POEMA (www.irabuscacio,blogspot.com)
MIRAGEM
O que ele vê
agora que me tornei despresença
na festa febril dos homens,
sem paisagens habitáveis
que mereçam um olho?
O que ele vê
agora que só tenho bondade,
onde antes habitava morte,
e o desejo ensaiava funerais
com dores belíssimas?
O que ele vê
agora que sou impulso trancado,
enquanto o tédio me lambe a boca
e as paredes maníacas dessa caixa
nada temem de solidão?
O que ele vê
agora que o barco já vai longe...longe!
e a menina apagou-se no cais,
dia após dia agitando o choro
como quem lava a face suja de dor?
Miragem!
Mas o que ele não vê
é uma diabólica serpente fingindo-se de morta!
ilustração retirada do blogue belasimagens.zip.net
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
Aquela velha casa
Permanece ainda lá a casa
daqueles tempos, com a
pintura daqueles tempos,
descascada, ruça, como o
tempo quis, o portão tão feio,
de madeira tão resistente e
a varanda cansada de tanto
aguardar chegadas.
Diferente apenas pelo vazio
estranho e pelo excesso de
pó que o tempo ali guardou.
Estão lá os corredores, com-
pridos como antes, sinistros
como sempre, desembarcando
silenciosamente em cada velho
cômodo.
Ouvem-se, ainda, se dada a
devida atenção, os gritos,
sorrisos e choros das crianças,
hoje crescidas, que herdaram,
sem ao menos perceberem, a
alma que a casa tinha...
ilustração retirada do blogue imagenscompoemas.blogspot
sábado, 25 de agosto de 2012
Vida minha
Este vazio, esta estrada
e a chuva,
repentina, inesperada,
um alerta...
E os sorrisos das pedras,
lágrimas alternadas,
incertezas da
vida, feridas...
E o vento,também incerto,
escuridão tão perto,
sorriso de criança...
Vivendo!
ilustração obtida em archdaily.com.br
terça-feira, 21 de agosto de 2012
Fé!
Queria sorrisos de sorte,
olhares de sonhos, azuis de
manhãs.
Notícias cantadas, sedosas vozes,
mãos de cumplicidade e
encanto.
Queria ventos frescos,
confortáveis, carinhosos,
arrefecendo desertos.
E poesia nos lábios, sabores
de mel... Queria...
E, apesar de tudo, ainda
não desisti!
ilustração obtida no rbg1.blogspot
sábado, 4 de agosto de 2012
Desejo de nada ( LAUREN MENDINUETA - poetisa colombiana )
Ainda é cedo.
Mil noites caíram sobre a terra
e outras mil caíram antes destas,
mas ainda não é tarde.
O vento envolve a casa com tanta força
que se diria ser uma mãe apaixonada.
Mas o vento não pode amar.
Tenho medo.
O mar não está longe daqui
e eu sou a mesma areia. sobre a qual caem
furiosas e incontidas ondas.
Mais adiante, no centro do temporal,
meus olhos buscam as razões de tanta ira.
Tenho vontade de chicotear a noite
até vê-la sangrar.
Desejo, até o infinito,
possuir algo que jamais se entregue.
Tradução livre.
Ilustração retirada do site hi5.com
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
Cuidado!
Deste lado da vida
as cores, nem todas,
costumam ser desbotadas.
Nem sempre o dia amanhece,
nem a noite é estrelada.
Deste lado da vida,
acredite, nunca chove
e os dentes dos cães
estão sempre à mostra.
Deste lado da vida
habitam apenas seres
estranhos, todo tipo de
insetos rasteiros e
poetas!!!
ilustração obtida no blog nirvanaexpansive.blogspot
terça-feira, 24 de julho de 2012
Sou
Sou assim mesmo.
Inegável meu jeito
em cada um dos meus
descuidados passos,
em cada letra que
escrevo, em cada olhar
desastrado que arrisco.
Sou assim mesmo.
De fala pouca e
imperceptível presença,
andarilho de minha
própria vida, parca
e inconstante, sou
assim mesmo.
Sempre!
ilustração obtina no blog edendaluxuria.blogspot.com
segunda-feira, 23 de julho de 2012
Perguntas
Não são respostas que
busco, apenas.
Também, quem sabe,
perguntas.
Porque buscar,
insistir em querer
encontrar respostas
somente?
Respostas são sempre
mais fáceis de
se encontrar que
a pergunta inteligente,
decisiva!
ilustração obtida em grupoboiadeirorei.blogspot
segunda-feira, 16 de julho de 2012
Um pouco mais que haiku de amor (David Teles Pereira - poeta português)
Tenho medido os dias a cigarros rápidos e imprecisos
fumados até o litoral dos teus olhos. Continuo...
no mesmo lugar de sempre, devolvendo
às cadeiras o sorriso emprestado pela familiaridade
dos seus gestos tão pouco poéticos.
Tenho acertado os dias pelos copos que agora
estão -ou estarei eu?- vazios. Vai-me pedindo
mais um copo, que eu vou convocar
certos demônios no espelho da casa de banho e, depois,
beber um pouco de água opaca, lavar bem as mãos, secá-las
e regressar à mesa quatro minutos menos feliz.
Não morras nunca, digo-te, acrescentando logo a seguir
que, mesmo assim, não quero falar da morte,
muito embora -desculpa-me a insistência-
o teu cabelo hoje me pareça mais preto que nunca.
Sorris.
É o que me vale, sabes sorrir tão bem.
ilustração tirada da internet
domingo, 8 de julho de 2012
Velho amigo
Para o meu grande amigo Dick...
Que decidiu ir.
porque estas lágrimas
esparsas, espessas,
profundas,
esta dor de punhal
por ocasos incompreensíveis
aos que te rodeiam.
porque sentimentos estranhos,
tantos,
ao menos para pessoas,
aquelas normais.
cala em teu peito a dor.
lembra só tu daqueles momentos,
de silêncio e paz,
guardados agora.
ilustração obtida no blog alimentodafe.blogspot
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