sábado, 7 de junho de 2014


JOSÉ EDUARDO AGUALUSA, AUTOR ANGOLANO - BARROCO TROPICAL

Diz Núbia de Matos, a cantora.

"Escrevo para iluminar os corredores da minha alma.
Bartolomeu iria crucificar-me por causa desta frase.
Consigo vê-lo a rir-se. Quando estou com ele até tenho
medo de falar, vigio-me constantemente para não dizer
trivialidades, não empolar as frases. Quero que se dane!
Sou assim mesmo. Além disso é verdade: conheço bem
a luz que dorme em certas palavras, a noite que se esconde
noutras. Há metáforas que deflagram como granadas,
estrofes capazes de abrir clarões à nossa frente. Já me
aconteceu de ter cantado os mesmos versos centenas de
vezes sem os compreender. Então, de repente, num palco
qualquer, o Bozar, em Bruxelas, o Finlândia Hall, em
Helsinque, o Koninklijk Theater Carré, em Amsterdan,
num palco qualquer, aquela mesma canção acende-se e
revela-se, abre-se, como uma porta, para um mundo
de cuja existência nem suspeitava. Quando me sinto
perdida, sento-me e escrevo. Quando estou irremediavelmente
perdida, canto. Canto para me salvar."



ilustração: capa do livro, obtida no Google

domingo, 1 de junho de 2014

Vaga


Como as espumas que cavalgam
as ondas,
desfiz-me aos teus pés nesta
praia inóspita.
Cumpri, assim, meus secretos desejos,
tocar-te mansamente, banhar tua pele.

Nada mais resta, portanto,
além de lembrar do sal que te dei...





ilustração retirada de luaalcantara.blogspot.com

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Cristalina


"a poesia se faz espontânea,
mina d'água natural,
fresca e saborosa,
mata a sede do sedento,
preenche históricas lacunas,
flui como sangue nas veias...

...ou não é poesia!"






ilustração obtida no ultradownloads.com.br

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Voz



Rouca e esquálida
minha voz sonha desejos
do ontem,
passados recentes,
que a ti me remetem.
Auxilia-me, ela, a te buscar,
ainda que tarde pareça,
na ânsia de ares límpidos
e frescor.

O calor me sufoca!


Ilustração: imagem obtida no youtube.com

domingo, 11 de maio de 2014

Tempestades


O encontro, marcado
há uma eternidade
não deixou de acontecer.

Nem tempestades,
nem a ira dos mares revoltos,
impediram o brilho
deste sol...




ilustração obtida em josemarialaves.blogspot

sábado, 26 de abril de 2014

Horizonte


Imenso.
Mergulhado neste céu,
amplo,
em contraposição ao horizonte,
encontro motivos para sorrir.
Finalmente!





Ilustração: rebeldialibertária.blogspot.com

domingo, 6 de abril de 2014

Verdades e mentiras


E se toda verdade
fosse mentira
e não restassem mais 
verdades a serem ditas?

Daí, as mentiras restantes
seriam bem ditas
e a vida, 
esta eterna verdade
ficariam de fora das
verdades
já ditas...




ilustração: blog.groupon.com.br

sexta-feira, 28 de março de 2014

A filha das flores - Vanessa da Mata



Trecho do livro A FILHA DAS FLORES, de VANESSA DA MATA, publicado
pela COMPANHIA DAS LETRAS, um daqueles livros que você lê encantado com
a qualidade do texto e com a magia dos sentimentos.

-- Como melhorar de uma paixão, Odézia? Qual o remédio? Não posso com isso,
não quero mais, me ajude. Estou manca de um olho, cega das pernas e surda das
mãos. Estou dando topadas no ar e não reconheço mais nada. Tudo o que eu tinha
não me serve mais, me quero de volta. Preciso da sua ajuda.

-- É preciso paciência, menina. Vou te dar chá de carqueja, vai diminuir o desespero.
Não é no coração que se aloja o líquido espesso da paixão, mas sim no estômago,
o coração apenas sofre o rebote do veneno.

Ela me explicou tudo: a carqueja limpava os fundos do corpo, o segundo cérebro,
o lugar onde se guarda o labirinto dos traumas e onde mora a memória.

-- Preciso deste remédio com urgência, Dedé. Estou muito doente.

-- Menina, a isso se chama maturidade. É preciso ser de alguém um dia. Você não
adora os livros, os poemas e os romances? Nada melhor do que ter um seu. Só 
precisa ter cuidado para não se perder, mas vivemos para isso, o desejo da
gente é esse. A vida toda é assim. As roupas, a literatura, os bailes, o comércio...


Ilustração: Fernanda, minha filha.


sexta-feira, 14 de março de 2014

Bordados



São de vapores frescos estes mágicos
encontros, estes segredos, mistérios nossos,
tecidos pacientemente na cortina do dia,
onde criamos a geometria do desejo
em cores vivas, nunca assim pinceladas.

E tecem as agulhas, ausentes de nosso
controle, figuras por nós jamais tocadas,
que, agora, nosso tato reconhece e aceita.
Bordados de beleza recente, cores de
descoloridos passados e de sedoso futuro.

Tecidos tão suaves, tratados com
a ânsia afinal plantada...





ilustração: artesanato.culturamix.com

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Ricardo Reis ( PESSOA )


Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
morre! Tudo é tão pouco!
Não se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
e cala. O mais é nada.



"E eu te amo, como nunca"
Imagem obtida em espinhoeoutrasflores.blogspot