domingo, 28 de fevereiro de 2016

A VOZ DO MAR - RUI MIGUEL FRAGAS



A voz do mar
pertence ao mar. E o canto dos pássaros não te
pertence. Ouve os pássaros e ouve o mar e o vento
que sopra ao longe. Escuta os sinos da tua voz, lá
dentro do teu peito: há em tudo o que escutas

o mesmo rumor.

Mesmo que seja só uma promessa de sílaba uma
vogal apenas ou o rasto de uma vogal. Mesmo que
não chegue para dizer o teu nome, mesmo

que não chegue para te chamar.

O que está dentro do teu peito é mais do que tu e o
que ouves é sempre mais

do que és capaz de dizer. A demora da luz e os
rituais da distância têm voz

mas não têm nome.

Só o rosário do silêncio me chama e ainda sou
capaz de ouvir as baleias do outro lado do mundo.
Só sei responder ao vento por isso, se me chamares,

não te responderei.

Não queiras mais nada para além dessa sílaba
adiada, dessa vogal ou eco e do eco dessa vogal.

O teu nome é um nebuloso sussurro vem de longe
e vai para longe, para lá de todas as luas de
saturno. És uma invocação sem apelo

não tens nome quando te chamo.






terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Jamais serão ditas...



Os olhos não entendem.
As frases, presas à boca, não
são ditas. Quase sempre,
não rompem silêncios...
Os passos, titubeantes,
não movem corpos tão
próximos.
O tempo, tão lento,
sufoca palavras que, assim,
jamais serão ditas...


A. C. Rangel





quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

CEMITÉRIO DE PIANOS - JOSÉ LUIS PEIXOTO



"Não há nenhuma diferença entre aquilo que acontecer
mesmo e aquilo que fui distorcendo com a imaginação,
repetidamente, repetidamente, ao longo dos anos.
Não há nenhuma diferença entre as imagens baças que
lembro e as palavras cruas, cruéis, que acredito que
lembro, mas que são apenas reflexos construídos
pela culpa. O tempo, conforme um muro, uma torre,
qualquer construção, faz com que deixe de haver
diferenças entre a verdade e a mentira.
O tempo mistura a verdade com a mentira."



Trecho do romance "CEMITÉRIO DE PIANOS" do escritor português  JOSÉ LUÍS PEIXOTO, publicado no Brasil em 2008 pela RECORD, que releio pela terceira vez e que recomendo.




segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

INFINITA CONVERSA COM AS NUVENS - RUI MIGUEL FRAGAS



Antes de partir para as montanhas espalharei os
poemas pelo chão como quem abre um mapa pela
última vez. Como quem relembra o extenso areal dos
dias, a incansável rotina dos comboios, a infinita
conversa com as nuvens.

Quando partir para as montanhas deixarei os poemas
pelo chão como quem renega todos os mapas. Levarei
apenas o meu corpo para que ele me fale do teu.



RUI MIGUEL FRAGA, na verdade Rui Feteira, é poeta português, nascido em Coimbra em 1964.



domingo, 7 de fevereiro de 2016

Queria tanto!



Ah! Como eu queria
me perder neste sorriso,
caminhar no teu olhar,
respirar tua emoção...

Doce seria me encontrar
na tua alma,
adormecer nesta paixão,
tomar teu coração...

Percorrer eternamente
os caminhos de tua vida,
te ouvir contar docemente
os mistérios desta paixão...

Ah! Como eu queria...


A. C. Rangel






quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Instinto




Estranho não me ser
dado sonhar !
Talvez fruto do vendaval
que tolda minha visão,
talvez
a inutilidade do
gesto !


A. C. Rangel





segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

CALENDÁRIO DAS DIFICULDADES DIÁRIAS - EGITO GONÇALVES



por aqui andaremos a morder as palavras
dia a dia no tédio dos cafés
por aqui andaremos até quando
a fabricar tempestades particulares
a escrever poemas com as unhas à mostra
e uma faca de gelo nas espáduas
por aqui continuamos ácidos cortantes
a rugir quotidianamente até o limite da respiração
enquanto os corações se vão enchendo de areia
lentamente
lentamente



EGITO  GONÇALVES
Poeta português
Nascido em Matosinhos em 1922
Falecido na cidade do Porto em 2001



segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

NÃO DIZIAS PALAVRAS - LUÍS CERNUDA



Não dizias palavras,
aproximava tão só um corpo interrogante
porque ignorava que o desejo é uma pergunta
cuja resposta não existe,
um mundo cujo céu não existe.

A angústia abre caminho entre os ossos,
sobre as veias
até se abrir na pele,
provedores de sonho
feito carne em interrogação voltada às nuvens.

Um roço de passagem,
um olhar fugidio entre as sombras,
chegam para que o corpo se abra em dois,
ávido de receber em si
outro corpo que sonhe;
metade e metade, sonho e sonho, carne e carne,
iguais em forma, iguais em amor, iguais em desejo.
Ainda que seja só uma esperança
porque o desejo é pergunta cuja resposta ninguém sabe.




terça-feira, 19 de janeiro de 2016

LEI SÁLICA - INÊS DIAS



As mulheres da família sempre
tiveram um jeito quase póstumo
de existir: guardar o lume
em silêncio, comer depois de
servir os outros, morrer primeiro.

Saíam à hora de ponta do destino
para lerem os caminhos perdidos
e colecionavam a abdicação
em caixinhas de folha, entre bilhetes
caducados ou dentes de infâncias alheias.

Esperavam a vida toda por uma vida
próxima, de alma presa a alfinetes
no vestido preferido para o enterro,
os passos medidos nas sua varandas
a dar para o fim do mundo.

Retomo-lhes às vezes os gestos
neste meu exílio inventado,
mas acaba aqui: vou encher de corpo
a sombra, mesmo que nem tempo
me reste já para a pesar.







quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Muamba




Escrevo, ou tento,
o que resta.
Talvez um fim de festa...
Ou pior,
um nunca ser qualquer festa,
um gritar
para tudo se acabar.

Debulho lágrimas, semi-sorrisos,
muxoxo,
me acho pouco e fácil,
comum, insosso!
"Prêt-à-portêr" de liquidação",
usado, sem garantia,
à venda em qualquer esquina
do pior canto da
cidade, 
artigo sem necessidade,
sou eu,
figurinha carimbada,
um tanto amassada,
só,
por ter amado de verdade!


A. C. Rangel