segunda-feira, 18 de julho de 2016

Manhãs





Manhãs, seguidas de vida,
inclementes previsões
de identidade,
verso e reverso de ser.

Manhãs de ventos tão
frios,
de verdades cotidianas,
formatos de sonhos:
eternidades...

Manhãs teimosas,
seguidas de vida...





quinta-feira, 7 de julho de 2016

HENRI MICHAUX



LEVAI-ME


Levai-me numa caravela,
numa antiga e amena caravela,
na proa, ou se quiserem, na espuma
e abandonai-me, lá longe, longe.

Na união a um outro tempo,
no veludo ilusório da neve,
no bafo de alguns cães à volta,
na extenuada turba das folhas mortas.

Levai-me sem me quebrar, nos beijos,
nos feitos que se solevam e respiram,
nos tapetes das palmas das mãos, no sorriso,
nas renques das articulações e dos ossos longos.

Levai-me, ou antes, ocultai-me.









segunda-feira, 27 de junho de 2016

JOSÉ JORGE LETRIA



2  POESIAS  DE  JOSÉ  JORGE  LETRIA  



Acendem-se as luzes de repente
e toda a escrita é iluminada
para receber em festa os fantasmas da desordem.
Um poeta sabe quando há de parar.
A escrita sussurra rente ao coração
as últimas rezas da aflição da noite.
Talvez nasça um livro desse caos.


----  o ----


Já morri em tantas mortes que não sei
como tenho ainda para aparecer
a mim mesmo com fingimentos
de assombro.





José Jorge Alves Leiria nasceu na cidade de Cascais, em Portugal,
em 08/06/1951 e é jornalista, poeta, dramaturgo e ficcionista.








sábado, 18 de junho de 2016

RENATA CORREIA BOTELHO



Uma a uma, as sílabas do
teu nome, declino-as no jardim
sobre a laje, pedra de silêncio
onde pouso as dores quando a
cabeça só se encaixa na
concha das mãos.

No descampado herdado dos teus braços
jazem letras indispostas em
rouco desassossego.

Não era preciso ter andado tanto; dista apenas
um palmo da palavra à erva daninha.





quinta-feira, 16 de junho de 2016

IRENE LISBOA




NOVA,  NOVA,  NOVA,  NOVA


Não era minha alma que eu queria ter.
Esta alma já feita, com seu toque de sofrimento
e de resignação, sem pureza nem afoiteza.
Queria ter uma alma nova.
Decidida, capaz de tudo ousar.
Nunca esta que tanto conheço, compassiva, torturada de trazer por casa.
A alma que eu queria e devia ter
era uma alma asselvajada, impoluta, nova, nova, nova, nova!!!




Dedico esta poesia a duas mulheres muito especiais na minha vida: Fernanda e Joelma.





sexta-feira, 27 de maio de 2016

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN




DUAS  POESIAS  DE  SOPHIA  



INSTANTE


Deixa-me limpo
o ar dos quartos
e liso
o branco das paredes.
Deixa-me com as coisas
fundadas no silêncio.

--- ooo ---

EU  CONTAREI


Eu contarei a beleza das estátuas --
seus gestos imóveis ordenados e frios --
e falarei do resto dos navios

sem que ninguém desvende outros segredos
que nos meus braços correm como rios
e enchem de sangue a ponta dos meus dedos.







segunda-feira, 23 de maio de 2016

VOCÊ CONHECE EDITH LOMOVASKY?



QUE CANÇÃO SEM BERÇO



Edith  Lomovasky
Poeta argentina


Que canção sem berço cantarei pelas
madrugadas?
Que gritarei às janelas
antes do fogo?

Não quero repetir
gerações de deserto.
Escapo-me a Deus das pragas e dos ternos sacrifícios.

A canção.
O berço.
Regressam do espelho dos meus sonhos.

O balançar feliz
perdura nos meus quadris.

Estou viva.





quinta-feira, 19 de maio de 2016

Calemo-nos




e quando as palavras não
vêm à boca,
entaladas entre a
ira e o receio de
fazerem sangrar passados?

e quando as palavras têm
o peso exato
do que se quer dizer
e a garganta se fecha
apenas para nos poupar?

calemo-nos, pois...





quarta-feira, 11 de maio de 2016

Ode ao luar





Não tenho medo das luas
que teimam em iluminar minhas
noites.
Confio em seus desígnios
e acredito em seus destinos.
Bebo todo o brilho de seus
olhares e não temo sequer
as sombras que ela produz.

Sou servo de sua luz
e de seus brancos e frios
sorrisos..





terça-feira, 3 de maio de 2016

2 POEMAS DE SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN




Nunca mais 
caminharás nos caminhos naturais.

Nunca mais te poderás sentir
invulnerável, real e densa -
Para sempre está perdido
o que mais do que tudo procuraste.
A plenitude de cada presença.

E será sempre o mesmo sonho, a mesma ausência.

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MAR NOVO


Este é o tempo
da selva mais obscura.

Até o ar azul se tornou grades
e a luz do sol se tornou impura.

Esta é a noite
densa de chacais
pesada de amarguras.

Este é o tempo em que os homens renunciam.