sexta-feira, 10 de novembro de 2017

AFOGADOS



Nem mesmo você,
 sinto,
percebe a vida a 
te rodear,
equivocada ao não me perceber
em ti.

Ondas enormes em praia tranquila...

Mãos secas
em corações afogados...

E eu ainda te respiro.
Vivo!









sexta-feira, 3 de novembro de 2017

NUNO JÚDICE



EXERCÍCIO



Pego um pedaço de silêncio. Parto-o ao meio
e vejo saírem de dentro dele as palavras que
ficaram por dizer. Umas meto-as num frasco
com o álcool da memória, para que se
transformem num licor de remorso; outras,
guardo-as na cabeça para as dizer, um dia,
a quem me perguntou o que significavam.
Mas o silêncio de onde as palavras saíram
volta a espalhar-se sobre elas. Bebo o licor
do remorso; e tiro da cabeça as outras palavras
que lá ficaram, até o ruído desaparecer, e só
o silêncio ficar inteiro, sem nada por dentro.




domingo, 29 de outubro de 2017

AINDA ASSIM



Não me gosta.
Se enganou.
Pior a emenda que o soneto.

Ainda assim,
as ansiadas chuvas chegaram...



quarta-feira, 25 de outubro de 2017

ALICE VIEIRA




Entre a saliva e os sonhos há sempre
uma ferida que não conseguimos
regressar

E uma noite a vida
começa a doer muito
e os espelhos donde as almas partiram
agarram-nos pelos ombros e murmuram
como são terríveis os olhos do amor
quando acordam vazios.




segunda-feira, 23 de outubro de 2017

FINAL DE TARDE





Mal escurece
e tudo se faz verdade...
A dura verdade dos sons
sem eco,
das noites geladas em
pleno verão,
dos gritos mortais,
dos vazios
gerais,
cansaço infinito...

Sem vogais!





sábado, 21 de outubro de 2017

O CADERNO




este caderno abre-se
para gritar o quê
pode ser lido na sua
quinta página.
e é um amor tão
grande,
e uma promessa tão pura que
nunca
poderia dar certo.

fecho o caderno!





sexta-feira, 13 de outubro de 2017

DÚVIDA



Por quê buscar no
vértice desta
sombra
o que perdi em
dia tão claro?





domingo, 8 de outubro de 2017

VERSOS DO PRISIONEIRO - 2 (MIA COUTO)




Não é de amor que careço.

Sofro apenas
da memória de ter amado.

O que mais me dói,
porém,
é a condenação
de um verbo sem futuro.

Amar!



sábado, 7 de outubro de 2017

CAMINHANDO



Mantenho este trilho,
esta caminhada,
faça chuva, faça
sol...

As pedras, piso-as
quase sempre com
dor.

O destino,
que nem sei se haverá,
vai me dizer
se valeram as mágoas...





quarta-feira, 4 de outubro de 2017

ROSANA CHRISPIM



ELOQUÊNCIA


o silêncio fala
às vezes 
fala demais
e até fala
o indizível
o que não há
o que não deve

o silêncio por vezes cala.