domingo, 11 de novembro de 2018

CHOVE

JOSÉ  GOMES  FERREIRA




Chove...

Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove...

Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.




sexta-feira, 2 de novembro de 2018

MENTIRA




Minto,
é inegável. E é a alma da mentira
que me seduz.
Conto o inenarrável.
Acrescento um ponto a cada conto.
Cara deslavada!
Olhar fixo, nunca vacilo.
Vício perfeito...

Minto.
E nada do que escrevo ou digo
é verdade!



segunda-feira, 29 de outubro de 2018

HÁ UM TEMPO - FERNANDO TEIXEIRA DE ANDRADE



Há um tempo em que é preciso
abandonar as roupas usadas,
que já tem a forma do nosso corpo,
e esquecer os nossos caminhos,
que nos levam sempre aos mesmos lugares.
É o tempo da travessia: e,
se não ousarmos fazê-la,
teremos ficado, para sempre,
à margem de nós mesmos.





segunda-feira, 15 de outubro de 2018

ESTRADA


dia comum,
como qualquer outro nesta
escalada de vozes.
pé na estrada,
larga,
longa,
que oferece sombras estreitas, 
desfeitas
e poeira constante...
nada a construir, a
sonhar, sequer.
seguir este caminho:
afinal,
o dia chegará...








segunda-feira, 10 de setembro de 2018

ASSIM




Nunca teremos a estatura
que nos agrade. Nem
tão perto do chão sobreviveremos.

Caminhar pela vida, pelos
anos passados, pelos sonhos
ainda não esquecidos.

Mesmo no clamor desta
batalha.

Mesmo com este vendaval
que nos turva o olhar.

Mesmo que!...





quinta-feira, 6 de setembro de 2018

SE !




Se este sol não me
batesse assim na
cara.
Se este vento não me trouxesse
recordações.

Se o tempo fosse mais que
suficiente,
parece,

teríamos uma chance...

Se!








terça-feira, 4 de setembro de 2018

A VIDA


A vida,
diária e insistente,
é bem mais
intensa do que
sentimos,
é bem mais
delicada do que
os cuidados que lhe
dispensamos.

Ela é muito mais
presente do que
sabemos...

Ainda há tempo?



quinta-feira, 23 de agosto de 2018


SOPHIA  DE MELLO  BREYNER  ANDRESEN




Não se perdeu nenhuma coisa em mim.
Continuam as noites e os poentes
que escorreram na casa e no jardim.
Continuam as vozes diferentes
que intactas no meu ser estão suspensas.
Trago o terror e trago a claridade.
E através de todas as presenças
caminho para a única unidade.











segunda-feira, 13 de agosto de 2018

MILTON NASCIMENTO


CAIS



Para quem quer se soltar
invento caís
invento mais que a solidão me dá.
Invento lua nova a clarear,
invento amor e sei a dor de me lançar.
Eu queria ser feliz
Invento o mar
invento em mim o sonhador
Para quem quer me seguir
eu quero mais
Tenho um caminho do que sempre quis
e um saveiro pronto pra partir
invento o cais
e sei a vez de me lançar.




sábado, 11 de agosto de 2018

RENATA CORREIA BOTELHO





Tens um pingo de água
na face, lembrando
os verões de nossa infância,
ternas baías de abrigo
para os pés, andarilhos, da memória.

No mar, a mãe disse, um dia,
não vás tão longe, meu amor.

Foi quando percebi que há colos onde vivemos
a vida inteira.