segunda-feira, 26 de setembro de 2016

SEM VOCÊ




tenho Pizarnik
em todos os momentos que
não tenho você.
e tua ausência,
embalada assim,
de verdade e arrepios,
mais do que triste,
fica cheia de
inspiração...







sábado, 10 de setembro de 2016

UTOPIAS


parcimoniosamente,
ao longo do tempo,
de todo tempo,
reconstruo gestos e
posturas que,
em mim,
fizestes desaparecer.

não cultivo mais lágrimas
nem sonho utopias
que,
agora sei,
apodreceram...





quarta-feira, 31 de agosto de 2016

ODONIR OLIVEIRA


DEIXA-ME  SER  POESIA



Não, não sou poeta de revoluções estéticas
porque não sou uma revolucionária mais.
Os anos vieram,
brinquei com eles,
brindei-os todos.
Hoje sou uma jardineira de rosas,
nos intervalos bebo versos,
mastigo pétalas,
danço com prazeres.
Não, não esperem de mim arroubos mais.
Escrevo o que escrevo por meus dedos
o que sentem minhas mãos.






Poesia obtida no jornalggn.com.br, de Luis Nassif



sábado, 27 de agosto de 2016

CONCEIÇÃO LIMA


A  CASA



Aqui projetei a minha casa:
alta, perpétua, de pedra e claridade.
O basalto negro, poros
viria da Mesquita.
Do Riboque o barro vermelho
da cor dos ibiscos
para o telhado,

Enorme era a janela e de vidro
que a sala exigia um certo ar de praça.
O quintal era plano, redondo
sem tranca nos caminhos.

Sobre os escombros da cidade morta
projetei a minha casa
recortada contra o mar.
Aqui.
Sonho ainda o pilar -
uma retidão de torre, de altar.
Ouço murmúrios de barcos
na varanda azul.
E reinvento em cada rosto fio
a fio

as linhas inacabadas do projeto.


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Conceição Lima é uma poeta de São Tomé e Príncipe e esta poesia foi obtida
no site Templo Cultural Delfos em cujo endereço,
www.elfikurten.com.br
outras poesias da autora podem ser encontradoas,


segunda-feira, 22 de agosto de 2016

JOSEPH S. COTTER



O  POÇO  NA  BEIRA  DA  ESTRADA



Um desejo interrompe meu passo junto ao poço da beira
da estrada.

Não é de beber, pois dizem que a água é salobra.

Não é de romance, pois um coração no fim da estrada me
chama.

Não é de descansar, pois que pés poderiam se cansar quando
um coração no fim da estrada marca o tempo com seus
passos?

Não é para meditar, porque o coração no fim da estrada é
alimento para o meu ser.

Eu vou perguntar ao poço sobre meu segredo jogando uma
pedrinha dentro dele,

Ah, está seco.

Ataco ligeiro a estrada com meus pés, pois corações são como
poços. Você não sabe que eles estão secos até que queira saber
sobre o que eles têm no fundo.

Desejos bloqueiam o caminho para o paraíso, e santos perdem
suas coroas.







quinta-feira, 18 de agosto de 2016

NAS TUAS MÃOS




Se choram as mentiras
muito mais do que tu,
repousam os dias
e vidas tão vazias,
que ali surgirão,

Se o gosto do sal
entranhado em tua boca
não sai mais,
procura o caminho
de volta pro rio.

Deixa que o sal,
pesado e forte,
impeça, afinal,
a minha morte.





domingo, 7 de agosto de 2016

A M PIRES CABRAL



FOI  PARA  ISSO   QUE  OS  POETAS  FORAM  FEITOS




Semear tempestades
e assegurar que cresçam
Foi para isso que os poetas foram feitos

Esgrimir com a mais idônea
das espadas: a coragem
 Foi para isso que os poetas foram feitos

Namorar a perfeição
e às vezes alcançá-la
 Foi para isso que os poetas foram feitos








segunda-feira, 18 de julho de 2016

Manhãs





Manhãs, seguidas de vida,
inclementes previsões
de identidade,
verso e reverso de ser.

Manhãs de ventos tão
frios,
de verdades cotidianas,
formatos de sonhos:
eternidades...

Manhãs teimosas,
seguidas de vida...





quinta-feira, 7 de julho de 2016

HENRI MICHAUX



LEVAI-ME


Levai-me numa caravela,
numa antiga e amena caravela,
na proa, ou se quiserem, na espuma
e abandonai-me, lá longe, longe.

Na união a um outro tempo,
no veludo ilusório da neve,
no bafo de alguns cães à volta,
na extenuada turba das folhas mortas.

Levai-me sem me quebrar, nos beijos,
nos feitos que se solevam e respiram,
nos tapetes das palmas das mãos, no sorriso,
nas renques das articulações e dos ossos longos.

Levai-me, ou antes, ocultai-me.









segunda-feira, 27 de junho de 2016

JOSÉ JORGE LETRIA



2  POESIAS  DE  JOSÉ  JORGE  LETRIA  



Acendem-se as luzes de repente
e toda a escrita é iluminada
para receber em festa os fantasmas da desordem.
Um poeta sabe quando há de parar.
A escrita sussurra rente ao coração
as últimas rezas da aflição da noite.
Talvez nasça um livro desse caos.


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Já morri em tantas mortes que não sei
como tenho ainda para aparecer
a mim mesmo com fingimentos
de assombro.





José Jorge Alves Leiria nasceu na cidade de Cascais, em Portugal,
em 08/06/1951 e é jornalista, poeta, dramaturgo e ficcionista.