domingo, 19 de novembro de 2017

HERANÇA



Este é o velho trem
que no passado levava,
sempre,
muitos sonhos,
muita esperança,
muitas desilusões.

Espalhava sentimentos.
enquanto engolia trilhos.

Deixou herdeiros quando
parou definitivamente de
rodar.
Do seu testamento recebi,
sozinho,
todas as desilusões!




sexta-feira, 17 de novembro de 2017

CARLOS DRUMOND DE ANDRADE




OS  OMBROS  SUPORTAM  O  MUNDO



Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho
e o coração está seco.

Em vão as mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.

Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.



sexta-feira, 10 de novembro de 2017

AFOGADOS



Nem mesmo você,
 sinto,
percebe a vida a 
te rodear,
equivocada ao não me perceber
em ti.

Ondas enormes em praia tranquila...

Mãos secas
em corações afogados...

E eu ainda te respiro.
Vivo!









sexta-feira, 3 de novembro de 2017

NUNO JÚDICE



EXERCÍCIO



Pego um pedaço de silêncio. Parto-o ao meio
e vejo saírem de dentro dele as palavras que
ficaram por dizer. Umas meto-as num frasco
com o álcool da memória, para que se
transformem num licor de remorso; outras,
guardo-as na cabeça para as dizer, um dia,
a quem me perguntou o que significavam.
Mas o silêncio de onde as palavras saíram
volta a espalhar-se sobre elas. Bebo o licor
do remorso; e tiro da cabeça as outras palavras
que lá ficaram, até o ruído desaparecer, e só
o silêncio ficar inteiro, sem nada por dentro.




domingo, 29 de outubro de 2017

AINDA ASSIM



Não me gosta.
Se enganou.
Pior a emenda que o soneto.

Ainda assim,
as ansiadas chuvas chegaram...



quarta-feira, 25 de outubro de 2017

ALICE VIEIRA




Entre a saliva e os sonhos há sempre
uma ferida que não conseguimos
regressar

E uma noite a vida
começa a doer muito
e os espelhos donde as almas partiram
agarram-nos pelos ombros e murmuram
como são terríveis os olhos do amor
quando acordam vazios.




segunda-feira, 23 de outubro de 2017

FINAL DE TARDE





Mal escurece
e tudo se faz verdade...
A dura verdade dos sons
sem eco,
das noites geladas em
pleno verão,
dos gritos mortais,
dos vazios
gerais,
cansaço infinito...

Sem vogais!





sábado, 21 de outubro de 2017

O CADERNO




este caderno abre-se
para gritar o quê
pode ser lido na sua
quinta página.
e é um amor tão
grande,
e uma promessa tão pura que
nunca
poderia dar certo.

fecho o caderno!





sexta-feira, 13 de outubro de 2017

DÚVIDA



Por quê buscar no
vértice desta
sombra
o que perdi em
dia tão claro?





domingo, 8 de outubro de 2017

VERSOS DO PRISIONEIRO - 2 (MIA COUTO)




Não é de amor que careço.

Sofro apenas
da memória de ter amado.

O que mais me dói,
porém,
é a condenação
de um verbo sem futuro.

Amar!