terça-feira, 12 de dezembro de 2017

PABLO NERUDA


PABLO  NERUDA



Foi nessa idade que a poesia me veio buscar
Não sei de onde veio
Do inverno, de um rio
Não sei como nem quando
Não, não eram vozes
Não eram palavras
Nem silêncio
Mas da rua fui convocado
Dos galhos da noite
Abruptamente entre outros
Entre fogos violentos
Voltando sozinho
Lá estava eu sem rosto
E fui tocado.






sábado, 9 de dezembro de 2017

LYA LUFT - DESATINO


DESATINO

(Do livro A casa inventada - LYA LUFT)


A vida, como a ficção,
é um teatro de desatino.
Meus personagens:
amantes, suicidas, sonhadores,
seres rastejantes, criaturas aladas,
simples humanos,
- crianças e seus segredos.
O bem, o mal, o riso, o esgar,
a procurada morte,
a sorte,
a sombra.
(Na beira do palco, como estrelas,
penduro palavras: esse
é o meu destino).




sábado, 2 de dezembro de 2017

ROMANCE




Nem sempre o
coração
fica tão perdido, sem
respostas.

Ninguém nunca
perguntou
se existo, sequer!

Agora,
quando me perguntas
tudo,
parece que te
encontro.

E a mim também...



quarta-feira, 22 de novembro de 2017





Relembra-me...

e terás um sorriso na boca
e um brilho nos olhos
que se transformarão
no melhor momento

deste dia...

Quem sabe de toda a vida!!!





A.C. Rangel



domingo, 19 de novembro de 2017

HERANÇA



Este é o velho trem
que no passado levava,
sempre,
muitos sonhos,
muita esperança,
muitas desilusões.

Espalhava sentimentos.
enquanto engolia trilhos.

Deixou herdeiros quando
parou definitivamente de
rodar.
Do seu testamento recebi,
sozinho,
todas as desilusões!




sexta-feira, 17 de novembro de 2017

CARLOS DRUMOND DE ANDRADE




OS  OMBROS  SUPORTAM  O  MUNDO



Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho
e o coração está seco.

Em vão as mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.

Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.



sexta-feira, 10 de novembro de 2017

AFOGADOS



Nem mesmo você,
 sinto,
percebe a vida a 
te rodear,
equivocada ao não me perceber
em ti.

Ondas enormes em praia tranquila...

Mãos secas
em corações afogados...

E eu ainda te respiro.
Vivo!









sexta-feira, 3 de novembro de 2017

NUNO JÚDICE



EXERCÍCIO



Pego um pedaço de silêncio. Parto-o ao meio
e vejo saírem de dentro dele as palavras que
ficaram por dizer. Umas meto-as num frasco
com o álcool da memória, para que se
transformem num licor de remorso; outras,
guardo-as na cabeça para as dizer, um dia,
a quem me perguntou o que significavam.
Mas o silêncio de onde as palavras saíram
volta a espalhar-se sobre elas. Bebo o licor
do remorso; e tiro da cabeça as outras palavras
que lá ficaram, até o ruído desaparecer, e só
o silêncio ficar inteiro, sem nada por dentro.




domingo, 29 de outubro de 2017

AINDA ASSIM



Não me gosta.
Se enganou.
Pior a emenda que o soneto.

Ainda assim,
as ansiadas chuvas chegaram...



quarta-feira, 25 de outubro de 2017

ALICE VIEIRA




Entre a saliva e os sonhos há sempre
uma ferida que não conseguimos
regressar

E uma noite a vida
começa a doer muito
e os espelhos donde as almas partiram
agarram-nos pelos ombros e murmuram
como são terríveis os olhos do amor
quando acordam vazios.