domingo, 29 de outubro de 2017

AINDA ASSIM



Não me gosta.
Se enganou.
Pior a emenda que o soneto.

Ainda assim,
as ansiadas chuvas chegaram...



quarta-feira, 25 de outubro de 2017

ALICE VIEIRA




Entre a saliva e os sonhos há sempre
uma ferida que não conseguimos
regressar

E uma noite a vida
começa a doer muito
e os espelhos donde as almas partiram
agarram-nos pelos ombros e murmuram
como são terríveis os olhos do amor
quando acordam vazios.




segunda-feira, 23 de outubro de 2017

FINAL DE TARDE





Mal escurece
e tudo se faz verdade...
A dura verdade dos sons
sem eco,
das noites geladas em
pleno verão,
dos gritos mortais,
dos vazios
gerais,
cansaço infinito...

Sem vogais!





sábado, 21 de outubro de 2017

O CADERNO




este caderno abre-se
para gritar o quê
pode ser lido na sua
quinta página.
e é um amor tão
grande,
e uma promessa tão pura que
nunca
poderia dar certo.

fecho o caderno!





sexta-feira, 13 de outubro de 2017

DÚVIDA



Por quê buscar no
vértice desta
sombra
o que perdi em
dia tão claro?





domingo, 8 de outubro de 2017

VERSOS DO PRISIONEIRO - 2 (MIA COUTO)




Não é de amor que careço.

Sofro apenas
da memória de ter amado.

O que mais me dói,
porém,
é a condenação
de um verbo sem futuro.

Amar!



sábado, 7 de outubro de 2017

CAMINHANDO



Mantenho este trilho,
esta caminhada,
faça chuva, faça
sol...

As pedras, piso-as
quase sempre com
dor.

O destino,
que nem sei se haverá,
vai me dizer
se valeram as mágoas...





quarta-feira, 4 de outubro de 2017

ROSANA CHRISPIM



ELOQUÊNCIA


o silêncio fala
às vezes 
fala demais
e até fala
o indizível
o que não há
o que não deve

o silêncio por vezes cala.







sexta-feira, 29 de setembro de 2017

OCEANO...


Resta-me este pequeno pedaço de papel onde posso, ainda, lembrar de você.
Você, que a vida me tomou, que os dias passados engoliram e que eu,
navegante sem rumo, jamais esqueci...

São as regras do mar, deste oceano enorme, que se vinga de mim por ser,
meu amor, muito maior do que ele...





quinta-feira, 28 de setembro de 2017

CARLOS DRUMOND DE ANDRADE



OS  OMBROS  SUPORTAM O MUNDO



Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abriras.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.

Alguns achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.