sexta-feira, 4 de março de 2016

VOLTO À MEMÓRIA DO MAR - GRAÇA PIRES



Volto à memória do mar,
ao fundo salgado do abismo,
ao sepulcro das cinzas,
ao meu chão de múltiplas névoas.
Muito longe serei ilha, ou rochedo,
ou pérola na fenda da concha.
Uma litania, um cântico,
um grito ao vento serei ainda,
amarrando os barcos.




Poesia de Graça Pires, obtida no blogue da autora: ortografiadoolhar.blogspot,com, retirado do livro UMA CLARIDADE CEGA, publicada no Brasil  pela EDITORA INTERMEIOS. Para aquisição do livro favor dirigir-se ao site redeintermeios.com

quinta-feira, 3 de março de 2016

O NOME DAS ÁRVORES - RUI MIGUEL FRAGAS



Há quem olhe as árvores como quem olha as árvores e
guarda nos bolsos dois nomes para cada árvore. As
árvores não morrem no interior da sombra.

Quem é que sabe que sabe até o fim do mundo é
pouco mais do que nada. Quem sabe que as palavras
são só uma nesga de paisagem. Quem caminha assim
por dentro dos caminhos, O nome das árvores é o
silêncio.

Há quem olhe as árvores como quem procura pássaros
dentro das árvores e o céu por cima das árvores. As
árvores não morrem no interior da sede.

Quem é que sabe que o destino é tão lento e está tão
perto. Para quem se demora o vento quando o vento se
demora. Quem é que sabe que sonhar é o princípio da
respiração. As árvores são o lume quando os caminhos
se acendem.

Há quem olha as árvores como quem olha as árvores
ou como quem olha as casas ao cair da noite. As
árvores não morrem no interior do medo.

Quem é que sabe que viver é viver prá lá da última
folha. Quem é capaz de morrer e depois de morrer não
morrer ainda. Quem habita os lugares invisíveis. As
árvores caminham no descuidado caminhar do tempo.

Há quem olhe as árvores como quem olhe as árvores
com os olhos súbitos e incendiados de amor. As
árvores não morremo no interior da chama.

Tudo nas árvores é o coração das árvores. Por quem os
pássaros esquecem as asas quando os pássaros
aquecem as asas. Quem sabe devagar amadurecer um
fruto. Quem é capaz de amar assim até as raízes.



Poesia obtida no blogue leiturasmalamanhadas.blogspot.com, a quem agradecemos sinceramente.



terça-feira, 1 de março de 2016

TÃO INÚTIL - ALICE VIEIRA



esperar que voltes é tão inútil como o
sorriso escancarado dos mortos na
necrologia dos jornais

e, no entanto, de cada vez que
a noite se rasga em barulhos no elevador e
um telefone se debruça de um sexto andar

sinto que ainda ficou uma palavra minha
esquecida na tua boca

e que vais voltar
para
a
devolver.


domingo, 28 de fevereiro de 2016

A VOZ DO MAR - RUI MIGUEL FRAGAS



A voz do mar
pertence ao mar. E o canto dos pássaros não te
pertence. Ouve os pássaros e ouve o mar e o vento
que sopra ao longe. Escuta os sinos da tua voz, lá
dentro do teu peito: há em tudo o que escutas

o mesmo rumor.

Mesmo que seja só uma promessa de sílaba uma
vogal apenas ou o rasto de uma vogal. Mesmo que
não chegue para dizer o teu nome, mesmo

que não chegue para te chamar.

O que está dentro do teu peito é mais do que tu e o
que ouves é sempre mais

do que és capaz de dizer. A demora da luz e os
rituais da distância têm voz

mas não têm nome.

Só o rosário do silêncio me chama e ainda sou
capaz de ouvir as baleias do outro lado do mundo.
Só sei responder ao vento por isso, se me chamares,

não te responderei.

Não queiras mais nada para além dessa sílaba
adiada, dessa vogal ou eco e do eco dessa vogal.

O teu nome é um nebuloso sussurro vem de longe
e vai para longe, para lá de todas as luas de
saturno. És uma invocação sem apelo

não tens nome quando te chamo.






terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Jamais serão ditas...



Os olhos não entendem.
As frases, presas à boca, não
são ditas. Quase sempre,
não rompem silêncios...
Os passos, titubeantes,
não movem corpos tão
próximos.
O tempo, tão lento,
sufoca palavras que, assim,
jamais serão ditas...


A. C. Rangel





quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

CEMITÉRIO DE PIANOS - JOSÉ LUIS PEIXOTO



"Não há nenhuma diferença entre aquilo que acontecer
mesmo e aquilo que fui distorcendo com a imaginação,
repetidamente, repetidamente, ao longo dos anos.
Não há nenhuma diferença entre as imagens baças que
lembro e as palavras cruas, cruéis, que acredito que
lembro, mas que são apenas reflexos construídos
pela culpa. O tempo, conforme um muro, uma torre,
qualquer construção, faz com que deixe de haver
diferenças entre a verdade e a mentira.
O tempo mistura a verdade com a mentira."



Trecho do romance "CEMITÉRIO DE PIANOS" do escritor português  JOSÉ LUÍS PEIXOTO, publicado no Brasil em 2008 pela RECORD, que releio pela terceira vez e que recomendo.




segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

INFINITA CONVERSA COM AS NUVENS - RUI MIGUEL FRAGAS



Antes de partir para as montanhas espalharei os
poemas pelo chão como quem abre um mapa pela
última vez. Como quem relembra o extenso areal dos
dias, a incansável rotina dos comboios, a infinita
conversa com as nuvens.

Quando partir para as montanhas deixarei os poemas
pelo chão como quem renega todos os mapas. Levarei
apenas o meu corpo para que ele me fale do teu.



RUI MIGUEL FRAGA, na verdade Rui Feteira, é poeta português, nascido em Coimbra em 1964.



domingo, 7 de fevereiro de 2016

Queria tanto!



Ah! Como eu queria
me perder neste sorriso,
caminhar no teu olhar,
respirar tua emoção...

Doce seria me encontrar
na tua alma,
adormecer nesta paixão,
tomar teu coração...

Percorrer eternamente
os caminhos de tua vida,
te ouvir contar docemente
os mistérios desta paixão...

Ah! Como eu queria...


A. C. Rangel






quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Instinto




Estranho não me ser
dado sonhar !
Talvez fruto do vendaval
que tolda minha visão,
talvez
a inutilidade do
gesto !


A. C. Rangel





segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

CALENDÁRIO DAS DIFICULDADES DIÁRIAS - EGITO GONÇALVES



por aqui andaremos a morder as palavras
dia a dia no tédio dos cafés
por aqui andaremos até quando
a fabricar tempestades particulares
a escrever poemas com as unhas à mostra
e uma faca de gelo nas espáduas
por aqui continuamos ácidos cortantes
a rugir quotidianamente até o limite da respiração
enquanto os corações se vão enchendo de areia
lentamente
lentamente



EGITO  GONÇALVES
Poeta português
Nascido em Matosinhos em 1922
Falecido na cidade do Porto em 2001