domingo, 11 de junho de 2017

DE ANTEMÃO

JOAQUIN  GIANNUZZI


Comprei café, cigarros, fósforos.
Fumei, bebi
e fiel à minha retórica particular,
pus os pés sobre a mesa.
Cinquenta anos e uma certeza de condenado.
Como quase todo mundo fracassei sem fazer ruído.
Bocejando ao cair da noite murmurei minhas decepções,
Cuspi sobre minha sombra antes de ir para a cama.
Esta foi toda a resposta que pude dar a um mundo
que esperava de mim um estilo que provavelmente não me
correspondia.
Ou pode ser que se trate de outra coisa. Quem sabe
houve um projeto diferente para mim
em alguma provável loteria
e meu número não saiu.
Quem sabe nada resolva um destino estritamente pessoal.
Quem sabe a maré histórica a resolva por um e por todos.
Me cabe isto.
Uma porção de vida que me cansou antecipadamente.
Um poema paralisado em meu caminho
por uma razão desconhecida.
Um resto de café na minha xícara
que por alguma razão
nunca me atrevi a tomar até o fundo.




2 comentários:

Ateliê Tribo de Judá disse...

Bela escolha, um poema lindo!
Nos trás reflexões profundas, as angustias da vida não podem nos parar.
Tomaremos juntos nossos cafés compartilhando até o final todas as emoções.
beijos e beijos
Joelma

Graça Pires disse...

Um poema que é um desabafo cheio de sombras... Mas gostei do estilo de Joaquin Giannuzzi. Uma boa semana, meu Amigo.
Um beijo.