Por que não cai a noite, de uma vez? - custa viver a vida assim aos encontrões! - Já sei de cor os passos que me cercam, o silêncio que pede pelas ruas e o desenho de todos os portões.
Por que não cai a noite, de uma vez? - irrita-me estas horas penduradas como frutas maduras que não tombam.
(E dentro de mim, ninguém vem desfazer o novelo das tardes enroladas).
É do silêncio que se faz nesta manhã que nasce o clamor dos meus sentimentos. É do silêncio que se esparrama pelo dia, envolvente e devastador, que me emociona e me toca profundamente, que sinto tua presença.
Aqui, ao meu lado, silenciosa e bela, pra que eu te ame, em silêncio, eternamente...
Como é doce esta sensação, esta ilusão de estar vivo. Depois de ter morrido tantas vezes, a cada revés, tocar o horizonte com meus dedos é reconfortante.
E você, que nunca morreu junto comigo pode, agora, viver comigo revivido.
Como é doce esta sensação, esta ilusão de estar vivo. Mais doce ainda a ilusão, a sensação de que você existe!
Era uma velha casa, numa velha rua, numa velha cidade, que eu amava. Gente comum, pensamentos comuns, vidas comuns, que eu amava. Mesmas conversas, mesmos assuntos, mesmos trejeitos, que eu amava.
Era. Não é mais. Agora é você, do jeito que eu amo!!!
O que é a vida? É esta sucessão de erros, de enganos? É esta alternância entre o descaso e a solidão? Ou não é nada disto e eu, exceção, não encontrei a essência
do que é viver?
O que é a vida? Acumular riquezas, ostentar orgulho, pura exibição? É só enriquecer, ter muito poder e triunfar? Ou não é nada disto e eu, cansado de errar, não encontrei o jeito certo de sobreviver?
O que é a vida? É esta eterna espera, é o que está por vir? Certeza de felicidade assim que amanhã chegar? Ou não é nada disto e eu, sempre a sonhar, não encontrei o tempo certo de te encontrar?
Tu eras também uma pequena folha que tremia no meu peito. O vento da vaga pôs-te ali. A princípio não te vi: não soube que ias comigo, até que as tuas raízes atravessaram o meu peito, se uniram aos fios do meu sangue, falaram pela minha boca, floresceram comigo.