quinta-feira, 3 de junho de 2010

Ainda quero


Não me prives
do ensurdecedor silêncio
que na minha vida, há muito,
se fez.
Não me prives
desta noite tão fria
que me envolve e
que me engole.

Docemente.

Traz tua luz, tua voz,
guardadas,
escondidas.
Não me prives de querer
meus
silenciosos temporais.

Ilustração: pgentil

terça-feira, 1 de junho de 2010

O velho

O homem pouco falava.
Peso do tempo vivido,
talvez.
Olhos fixos no chão,
cabeça baixa.
Peso do tempo vivido,
por certo.

Não precisava falar.
Sequer olhar.

Seu negacear de cabeça,
lento e resoluto desacordo
explícito,
dizia mais que palavras,
que olhares.
Dizia tudo.

Nada valera
o tempo vivido.


Ilustração: treklens

sábado, 22 de maio de 2010

Amarela rosa


Meu destino é breve
como esta gota de orvalho,
tênue,
como este começo de manhã,
efêmero.

Meu destino, sabido,
frágil,
inocente,
aproxima-se.

E, com ele,
vai-se esta rosa
amarela.

Definitivamente,
meu destino...


Ilustração: imotion

domingo, 9 de maio de 2010

Quisera


Quisera ter o poder das letras,
que numa poesia arrebatadora,
pudesse, somente como nos sonhos,
encerrar este estado de coisas,
estado de espírito,
apagão da alma,
arrepiando peles,
embargando emoções,
cativando...

Tudo o que queria...


Ilustração: janio.sarmento

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Lago

Era um lago,
imenso,
de águas claras,
às vezes, poucas vezes,
turvas,
de águas frescas,
às vezes,
mornas,
agradável, envolvente,
onde sempre me banhei.

Lago onde a lua fez morada.

Era um lago,
imenso.
Eram, sempre foram,
teus olhos!



Ilustração: i.olhares

terça-feira, 20 de abril de 2010

Eterna


Mesmo que dure,
a noite,
o resto da vida,
ainda assim,
terá valido a pena
não ter
adormecido...



Ilustração: marcioruno

sábado, 3 de abril de 2010

Noites minhas


Distante estou
daquele poente,
daquele anunciar de noite.
Calma.
Distante, cada vez mais.

As noites turbulentas,
sem sinal de luar,
estas sim,
cada vez mais íntimas,
cada vez mais minhas.

Ilustração: garatujando.pt

domingo, 21 de março de 2010

Calar


Às vezes me calo.
E daí este calar,
como se o punhal
se acomodasse
por entre minhas
carnes.

Às vezes me calo.
E sangro,
como se a dor,
por si só,
não fosse suficiente,
não tivesse sentido.

Às vezes me calo.
E o silêncio me veste,
como mortalha pesada.
E eterna.


Ilustração: lanc.com

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Oeste


Olhar para o oeste
e ver, resumida,
a imagem de meus dias,
nem sempre,
quase nunca,
coloridos.

Olhar para o oeste
e ver, em detalhes,
o que, nem sempre,
merece
ser visto...


Ilustração: atuleirus

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Incômodo

De todos os silêncios
restou este ruído opaco,
incômodo,
porque é da minha vida...

De todas as palavras ditas
restou este murmúrio fraco,
incômodo,
porque é da minha vida...

De todos os olhares
restou este esgar de sentimento,
incômodo,
porque é da minha vida...
De todos aqueles momentos,
incômodos,
restou este vazio eterno
em que se transformou a minha vida!


Ilustração: pic20.picturetrail