domingo, 21 de março de 2010

Calar


Às vezes me calo.
E daí este calar,
como se o punhal
se acomodasse
por entre minhas
carnes.

Às vezes me calo.
E sangro,
como se a dor,
por si só,
não fosse suficiente,
não tivesse sentido.

Às vezes me calo.
E o silêncio me veste,
como mortalha pesada.
E eterna.


Ilustração: lanc.com

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Oeste


Olhar para o oeste
e ver, resumida,
a imagem de meus dias,
nem sempre,
quase nunca,
coloridos.

Olhar para o oeste
e ver, em detalhes,
o que, nem sempre,
merece
ser visto...


Ilustração: atuleirus

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Incômodo

De todos os silêncios
restou este ruído opaco,
incômodo,
porque é da minha vida...

De todas as palavras ditas
restou este murmúrio fraco,
incômodo,
porque é da minha vida...

De todos os olhares
restou este esgar de sentimento,
incômodo,
porque é da minha vida...
De todos aqueles momentos,
incômodos,
restou este vazio eterno
em que se transformou a minha vida!


Ilustração: pic20.picturetrail

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Quando foi mesmo?

Quando foi que pedistes que eu,
sem receio,
expusesse minhas sortes,
minhas dores?

Quando foi que pedistes,
que eu,
corajoso,
gritasse teu nome,
bem alto,
completo?

Nunca,
talvez!

Porque não gritei,
nem me expus.

Porque o tempo se foi...
E você, também...


Ilustração: cedrorosaaclimacao

sábado, 9 de janeiro de 2010

Quero!


De tua embriaguez
quero ser o copo,
quero ser o rosto,
o amargor
de tanta
dor...

De tua alucinação
quero ser o corpo,
quero ser o oposto,
o repouso
de tanta
dor...


Imagem: The surprise/Claude-Marie Dubufe

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Encantadora

Encantadora

A manhã se faz viva,
escaldante, já,
colorida.
Afasta de uma só vez
os pensamentos,
atitudes sombrias,
que fizeram a noite se arrastar
e,
plena de luz,
de sons, encantadora,
desentorpece este
coração!

Ilustração: overmundo

domingo, 27 de dezembro de 2009

Vitorino Nemésio

Um fio de asas
(Vitorino Nemésio)

Quando penso no mar, o mar regressa
a linha do horizonte é um fio de asas
e o corpo das águas é luar;

De puro esforço, as velas são memória
e o porto e as casas
uma ruga de areia transitória.


Ilustração: catedral

sábado, 19 de dezembro de 2009

Perdido


Perdi-me,
em noite tão escura
e fria,
não sei exatamente em que momento.
Vaguei,
por serras e penhascos,
pântanos e areais,
ermos lugares,
vazias palavras,
sem eco, sem luz...

Por tuas mãos retornei
e não sei dizer,
ainda,
onde estou...


Ilustração: acaogospel

sábado, 12 de dezembro de 2009

A. M. Pires Cabral


Os velhos
(A. M. Pires Cabral)

Porque se demoram
os velhos de sal no rosto?

Sentam-se ao sol, escoram
o corpo ansiado nas bengalas
comem e riem sem gosto

Entram na igreja com gengiva nua
Mansamente pedem e adoram

Porque se demoram?
Que teima é a sua?

Porque se demoram?
Aos tropeções na casa são fastio
Os velhos de tão gasta serventia

O que pensam quando passa mais um dia?
Porque parece que choram
sempre seus olhos de frio?

Porque se demoram?


Ilustração: opinativas.files

sábado, 5 de dezembro de 2009

Desaprendemos


Tivemos, sim, momentos em que,
como na infância,
tudo parecia irremediavelmente
sorrir.

Desaprendemos como rever momentos assim,
como preservar tímidos sorrisos,
como viver deste sol.

Desaprendemos, juntos,
o sabor deste sol...

E, juntos, vimos se desintegrar
o que só se faz
juntos...


Ilustração: 2.bp